Conferência de encerramento destacou os desafios da escola contemporânea diante da inteligência artificial, da personalização do ensino e da formação humana em um mundo cada vez mais conectado
Por: Elaine Casimiro, comunicação SESI-SP
15/05/202613:56- atualizado às 14:01 em 15/05/2026
A conferência de encerramento do IV Congresso Internacional de Educação trouxe uma reflexão profunda sobre os caminhos da escola contemporânea diante das rápidas transformações tecnológicas e sociais. Com o tema “Educação Transformadora com apoio de tecnologias”, o professor José Moran conduziu uma palestra marcada por análises sobre inteligência artificial, metodologias ativas, ensino híbrido e os desafios da formação humana em tempos digitais.
Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), Moran foi professor da Escola de Comunicações e Artes por mais de uma década e um dos fundadores do Projeto Escola do Futuro. Referência nacional nos estudos sobre inovação educacional, ele defende uma abordagem crítica, ética e humanista no uso das tecnologias aplicadas à educação.
Logo no início da palestra, Moran relembrou as expectativas que existiam há cerca de 40 anos sobre o futuro da escola e como se imaginava que a transformação digital mudaria rapidamente os modelos de ensino.
“Na perspectiva que tínhamos no final do século XX, acreditávamos que tudo mudaria rapidamente. Imaginávamos uma escola muito mais híbrida, flexível, em que aprenderíamos em qualquer lugar, de múltiplas formas. Já estamos em 2026 e, embora tenhamos avançado, a distância entre o que prevíamos e o que realmente aconteceu ainda é enorme. Além disso, infelizmente, não avançamos como pessoa, no desenvolvimento humano, nas relações. É um país que adota tecnologia, mas tem dificuldade de olhar o mundo real a partir da perspectiva das pessoas”, afirmou.
Segundo ele, houve avanços importantes, especialmente na incorporação das tecnologias e no debate sobre competências e metodologias ativas. No entanto, ressaltou que a transformação ainda não alcançou a maioria das escolas brasileiras de maneira efetiva.
“A escola mudou muito, sem dúvida. O SESI mudou muito. Hoje falamos de competências, metodologias ativas, ensino híbrido. Mas, na prática, a grande maioria das escolas brasileiras ainda não trabalha verdadeiramente por competências, assim como vocês”, destacou.

José Moran, doutor em Ciências da Comunicação e professor da Escola de Comunicações e Artes da USP
e um dos fundadores do Projeto Escola do Futuro. Foto: Everton Amaro - Fiesp/Sesi
Ao refletir sobre as mudanças das últimas décadas, Moran destacou que o desenvolvimento tecnológico não foi acompanhado, na mesma velocidade, pelo desenvolvimento humano e emocional. “Achei que evoluiríamos também como pessoas, que saberíamos responder melhor aos desafios e levar uma vida mais equilibrada, mais autônoma. E nisso não avançamos tanto. Somos um país curioso tecnologicamente, aberto às novidades, mas também extremamente ansioso, inseguro e dependente desse mundo digital”, observou.
O professor apontou que a sociedade vive hoje impactos profundos provocados por três grandes rupturas tecnológicas: a internet, os smartphones e, mais recentemente, a inteligência artificial generativa. “O terceiro grande choque tecnológico para mim foi a IA. Eu nunca imaginei que chegaríamos a conversar com máquinas, pedir orientações, construir ideias com robôs. Hoje isso já faz parte do cotidiano”, comentou.
Moran também alertou para os efeitos do uso excessivo das tecnologias, especialmente entre crianças e jovens. “Estamos o tempo todo olhando para o celular. Há ansiedade, dependência, excesso de estímulos. Temos falhas importantes na formação humanista e precisamos enfrentar isso com seriedade”, disse.
Durante a palestra, Moran destacou o papel estratégico das escolas diante dessa nova realidade digital e ressaltou a importância de projetos educacionais que integrem tecnologia e formação humana.
Ao citar o trabalho desenvolvido pelo SESI-SP, ele reconheceu a relevância da instituição no cenário educacional brasileiro. “Vocês têm um dos melhores projetos de educação do Brasil. Acompanhei parte dessa construção e sempre enxerguei o SESI como uma referência importante para pensar inovação educacional”, afirmou.
Para o pesquisador, não é mais possível pensar a educação desconectada das tecnologias, já que as novas gerações vivem permanentemente inseridas nesse universo. “As crianças vivem nesse mundo conectado. Não adianta comparar com a geração que cresceu sem internet ou sem Google. O professor precisa aprender a ensinar nesse contexto, para estudantes que estão imersos no digital e que também enfrentam ansiedade e excesso de informação”, explicou.
Moran defendeu ainda que a escola precisa avançar na personalização do ensino, considerando os diferentes ritmos e necessidades de aprendizagem dos estudantes. “Ainda organizamos a escola de forma muito igual para todos. O desafio agora é combinar o que cada estudante precisa individualmente com aquilo que o grupo necessita como comunidade de aprendizagem”, ressaltou.

Foto: Everton Amaro - Fiesp/Sesi
Ao abordar as transformações mais recentes na educação, Moran apresentou experiências internacionais que utilizam inteligência artificial para personalizar o ensino e reorganizar os currículos escolares.
Entre os exemplos citados, destacou escolas norte-americanas que alternam momentos de estudo individual mediado por tecnologia com projetos colaborativos, oficinas práticas e desenvolvimento socioemocional. “A IA pode ajudar muito na parte conceitual, enquanto os professores orientam projetos, experiências práticas e o desenvolvimento humano. Se isso for bem conduzido, pode representar uma mudança importante na forma como organizamos a aprendizagem”, explicou.
O professor também alertou que muitos desses modelos ainda estão restritos a escolas de elite, o que amplia os desafios educacionais em países marcados pela desigualdade social, como o Brasil. “Precisamos pensar como essas transformações chegarão à maioria da população. As soluções para as classes mais altas virão rapidamente. O grande desafio é construir uma educação de qualidade também para a classe trabalhadora”, afirmou.
Segundo Moran, a inteligência artificial deve ser compreendida como uma tecnologia transversal, capaz de transformar profundamente a economia, o trabalho e as formas de organização social. “A IA não é apenas uma plataforma ou um aplicativo. Ela terá um impacto comparável ao da eletricidade ou das máquinas a vapor em outros períodos da história”, analisou.

Foto: Everton Amaro - Fiesp/Sesi
Nos momentos finais da conferência, Moran reforçou a necessidade de uma educação que vá além do domínio técnico e prepare os estudantes para uma vida ética, colaborativa e com propósito. “Não basta formar pessoas altamente capacitadas tecnicamente. Precisamos ajudar os estudantes a encontrarem significado, sentido e equilíbrio ao longo da vida”, declarou.
O pesquisador também destacou a importância das profissões ligadas ao cuidado humano em um futuro cada vez mais automatizado. “Educação é uma profissão do cuidado. Saúde, saúde mental, acolhimento, desenvolvimento humano, tudo isso continuará sendo essencial, porque a inteligência artificial sozinha não resolverá os problemas humanos”, afirmou.
Ao encerrar sua participação, Moran deixou uma reflexão sobre aprendizagem contínua e construção de sentido ao longo da vida. “Grande parte das pessoas passa pela vida sem encontrar significado no aprender. Aprendem apenas por obrigação. Precisamos construir uma educação viva, em que cada estudante descubra propósito no conhecimento e continue aprendendo sempre”, finalizou.