Torcedor do Sesi-SP que sofre de paralisia realiza sonho de conhecer campeãs olímpicas de vôlei

Sesi Vila Leopoldina foi local de encontro de paciente do HC com atletas Dani Lins (Sesi-SP) e Jaque e Thaisa (Sollys/Nestlé/Osasco)

Talita Camargo - 06/02/2013

Paulo Henrique Machado é um dos pacientes mais antigos do Instituto de Ortopedia e Traumatologia (IOT) do Hospital das Clínicas (HC), em São Paulo, um prédio feito originalmente para a paralisia infantil. Hospitalizado há 40 anos, ele representa uma das últimas vítimas do surto de paralisia infantil que ocorreu no Brasil, no início da década de 1970. Sua mãe faleceu no parto e sua avó cuidou dele até adoecer e também falecer. Diagnosticado com o vírus da poliomielite, o hospital passou a ser a residência fixa de Paulo desde os dois anos de idade. A doença tirou dele muitas coisas, como o movimento das pernas e a capacidade de respirar sozinho, que o tornou dependente de um equipamento de respiração de ar comprimido. Mas a poliomielite não conseguiu tirar de Paulo a capacidade de sonhar.

 
Foto: Lucas Dantas 
Paulo ao lado de Dani Lins: "É tanta alegria, que não tenho nem como transmitir essa sensação. É maravilhoso poder sentir essa felicidade que estou sentindo" 

Aos 45 anos de idade, o grande sonho de Paulo era simples: conhecer três atletas campeãs olímpicas em Londres-2012 do time de vôlei feminino: Dani Lins (Sesi-SP), Jaqueline e Thaísa (Sollys/Nestlé). “Depois das Olimpíadas de Londres-2012, em que o time feminino ganhou medalha de ouro, eu publiquei no meu Facebook que gostaria de ter a oportunidade de conhecer as jogadoras da seleção, mas acabou não dando certo. E eu entendo, porque sei que é muito complicado e muito difícil”, explicou.

Mas na noite desta terça-feira (05/02), o cenário do já conhecido ginásio do Sesi Vila Leopoldina transformou-se em um pedaço do HC para receber Paulo. Depois do clássico Sesi-SP x Sollys/Nestlé, vencido pela equipe de Osasco por 3 sets a 1, ele recebeu a tão esperada visita de Dani Lins, Jaqueline e Thaísa. Ao encontrar as jogadoras, Paulo confessou: “elas são mais bonitas pessoalmente do que na televisão”. E quando questionado por elas para quem torceu, Paulo foi elegante e brincalhão: “Não torci para nenhum dos dois. Eu torço para o Brasil”.

“Esperávamos a visita dele há um mês e é maravilhoso tê-lo aqui”, afirmou a levantadora do Sesi-SP, Dani Lins, que acredita que a história de Paulo é uma lição: “serve para pararmos de reclamar um pouco de vida. É de arrepiar”. Na opinião dela, a vida dele é um aprendizado. “Saber que uma pessoa que está há 40 anos num hospital e que a família abandonou, é fã do vôlei e conhece a gente… é uma lição de vida”, afirmou a levantadora.

Jaqueline, ponteira da seleção, também ficou emocionada. “Olhei para ele e ele começou a rir. As lágrimas começaram a escorrer. A gente sabe o trabalho que dá, pegar a ambulância e ele vir até aqui ]na Vila Leopoldina]. E ele fez tudo isso por amor”, disse a atleta.

Emocionado e feliz, Paulo agradeceu à equipe do Sesi-SP pela oportunidade. “É tanta alegria, que não tenho nem como transmitir essa sensação. É maravilhoso poder sentir essa felicidade que estou sentindo”, declarou.

Logística

Embora sair do Hospital das Clínicas não seja algo inédito para Paulo, a logística envolve um planejamento antecipado. “É dificultoso de ele sair do hospital”, explicou a assistente social Ligia Marcia Finetto, que acompanha Paulo há muitos anos.

Segundo ela, graças ao avanço tecnológico e ao desenvolvimento de um novo aparelho de ar comprimido, que funciona apenas conectando-o a uma tomada, tudo o que ele precisa para sair do hospital é do transporte de uma ambulância, a maca onde fica deitado, o aparelho de ar comprimido, o aspirador e um enfermeiro para acompanhá-lo.

A assistente social explicou também que quando algum paciente portador de paralisia deseja sair do hospital, ela tem que entrar em contato com os responsáveis pelo estabelecimento onde ele quer ir, para organizar o passeio.

Superação

Embora as limitações sejam inúmeras, Paulo completou o Ensino Fundamental e o Ensino Médio por meio de aulas realizadas no próprio hospital. “O HC foi o primeiro hospital a ter uma classe de escola, pois percebemos que as crianças estavam crescendo e não podíamos deixá-las sem escola”, explica Ligia.

Porém, ele ainda deseja cursar uma faculdade a distância. “A maior dificuldade é que ainda são exigidas algumas aulas presenciais e, no caso dele, é muito complicado”, afirmou Ligia.

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